Quem está à frente do Mesa de San Miguel
Paris, os anos de formação.
Viveu em Paris na segunda metade dos anos 1980. Paris ensina cozinha francesa a quem procura, mas ensina outra coisa a quem presta atenção: ensina que o mundo inteiro come, e come bem, e come diferente. Numa mesma semana era possível almoçar vietnamita, jantar marroquino, provar o que os poloneses do exílio faziam e voltar a um bistrô onde se servia, sem cerimônia e sem manchete, um pot-au-feu que já era velho quando Balzac nasceu. Foi ali que se formou a convicção que estrutura esta casa: não é preciso inventar comida. É preciso ir buscá-la.
A formação técnica.
Cozinha francesa clássica pelo método das cordons-bleus - o repertório de fundos, molhos-mãe, cocções e cortes que é, na prática, a gramática de quase toda a cozinha ocidental profissional.
Somaram-se a isso cursos e aperfeiçoamentos no Brasil, entre eles no SENAC, e uma biblioteca de trabalho: o Viandier de Taillevent (1373), os receituários portugueses e brasileiros do século 19, os manuais de casa de família, os livros de cozinha regional que ninguém mais consulta.
Por que a cozinha das cordons-bleus e a cozinha histórica.
As duas escolhas são uma só. A técnica clássica não é um estilo: é uma chave. Quem sabe fazer um fundo, montar uma emulsão, conduzir uma cocção lenta e ler uma proporção antiga consegue abrir qualquer receituário do mundo — o marroquino, o russo, o baiano, o goês — e restituir o prato ao que ele era, em vez de “adaptá-lo” ao próprio gosto. A técnica francesa é o que permite não trair as outras cozinhas. E a cozinha histórica é o destino natural de quem tem essa chave: se você pode ler o Viandier, por que cozinhar apenas o que se cozinhou esta semana?
A história como ingrediente.
A formação em História - europeia, sobretudo - não é um enfeite biográfico. Um prato é um documento. A galimafrée diz como se temperava com gengibre e vinagre no fim da Idade Média. O miroton das concierges parisienses diz o que se fazia com a carne cozida de ontem numa cidade de porteiras e prédios altos. O "arroz de puta rica" de Goiás Velho diz tudo, no próprio nome, sobre quem podia gastar e quem não podia. Servir esses pratos sem contar isso seria servir metade.
Trinta anos de mesa.
Antes de existir o Mesa de San Miguel, houve décadas de mesas cheias em casa, amigos, famílias, jantares que começavam cedo e terminavam tarde. O anti-restaurante não foi uma virada de carreira: foi a continuação de uma trajetória de vida, a afirmação de um hábito delicioso, prazeirozo e, fundamentalmente, importante.